O mês de setembro tem um significado importante para as pessoas com deficiência, especialmente por marcar, no dia 21, o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, data que amplia, no país, as campanhas, os debates e as reflexões sobre inclusão, dignidade e respeito.
Para a comunidade surda, o período também é marcado por datas importantes para a defesa da acessibilidade e dos direitos: 23 de setembro, Dia Internacional das Línguas de Sinais; 26 de setembro, Dia Nacional dos Surdos; e 30 de setembro, Dia Internacional da Tradução, data também relacionada à valorização dos profissionais que atuam na tradução e interpretação de línguas de sinais.
Com o objetivo de dar visibilidade ao tema, a Câmara de Contagem promoveu, nesta quinta-feira (24/09), uma roda de conversa sobre os desafios enfrentados pelas pessoas surdas, a partir das experiências e da vivência cotidiana da própria comunidade. O encontro foi realizado no Plenário da Casa e contou com a participação de Matheus Alves, pessoa surda e estudante do curso de Licenciatura em Letras-Libras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A organização e tradução em Libras ficou a cargo dos intérpretes e servidores da Casa, Márcio Jardim e Carmem Chaves.
Um dos pontos abordados pelo participante foi sua própria trajetória estudantil. Filho de pais ouvintes, ele enfrentou dificuldades durante a infância, período em que a família ainda não dominava plenamente a Língua Brasileira de Sinais. O contato com uma associação de pessoas surdas e com uma escola especializada possibilitou o aprendizado da Libras e uma maior interação com outras pessoas surdas. A trajetória escolar, no entanto, foi marcada por mudanças de instituições, interrupções e dificuldades de comunicação com estudantes ouvintes.
Mesmo diante dos obstáculos, Matheus concluiu a educação básica e, posteriormente, ingressou no ensino superior, após ser aprovado no vestibular com o apoio de recursos em Libras. Atualmente, além da formação universitária, demonstra interesse pela área de informática e pela atuação profissional ligada à tecnologia.
Barreiras de comunicação ainda dificultam o acesso a serviços
Um dos pontos destacados durante a conversa foi a dificuldade enfrentada por pessoas surdas para conseguir atendimento adequado em situações que exigem comunicação rápida e eficiente. Foram relatados casos envolvendo serviços de emergência em saúde, hospitais, unidades de pronto atendimento, polícia, Justiça e outros órgãos públicos.
A ausência de profissionais capacitados em Libras e de mecanismos acessíveis de comunicação pode fazer com que a pessoa surda tenha dificuldades até mesmo para ser chamada ou explicar sua necessidade.
Os participantes também discutiram o uso da ICOM (Central de Intermediação em Libras) como recurso de comunicação. Embora a ferramenta possa facilitar o contato entre pessoas surdas e serviços, foi apontada a necessidade de aperfeiçoar os procedimentos para que situações envolvendo saúde, segurança pública e Justiça tenham atendimento prioritário e não permaneçam submetidas às mesmas filas de demandas comuns.
A discussão reforçou que o principal obstáculo não está na capacidade da pessoa surda, mas nas barreiras de comunicação existentes nos serviços. Nesse sentido, os participantes defenderam a criação e a efetivação de políticas públicas capazes de garantir igualdade de acesso.
Autonomia

Outro relato apresentado por Matheus durante o encontro envolveu a compra de um computador. Ele recebeu um produto diferente daquele adquirido e enfrentou problemas após a instalação. A ausência de informações acessíveis sobre o produto e sobre os procedimentos para solucionar a situação dificultou a resolução do problema, que só teve andamento após o acionamento do Procon. O atendimento presencial contou com a presença de um familiar de Matheus, que fez a intermediação da comunicação entre ele e o atendente.
A experiência levou à reflexão sobre a importância de garantir que pessoas surdas possam realizar, de forma autônoma, atividades cotidianas que envolvem serviços públicos e privados.
Sobre a questão, o servidor do Procon Câmara, João Paulo Mesquita Cardozo, compartilhou sua experiência no atendimento ao público após a realização do curso básico de comunicação em Libras promovido pela Câmara para seus servidores.
“Às vezes, para passar informações básicas, a gente precisava acionar os intérpretes da Câmara, que às vezes não estavam disponíveis. Então, esse simples curso que a gente fez já me ajudou bastante”, disse.
Ao final do encontro, os participantes destacaram a necessidade de transformar o debate em ações concretas para eliminar barreiras de comunicação e ampliar a acessibilidade, com formação de profissionais, presença de intérpretes e maior conhecimento sobre Libras.
Matheus defendeu ainda a ampliação do diálogo entre o Poder Legislativo, o Poder Executivo, associações e organizações representativas da comunidade surda, com medidas como o fortalecimento das centrais de Libras, a oferta de recursos acessíveis em plataformas digitais e a melhoria do atendimento nos serviços públicos. A roda de conversa reforçou a importância da participação das próprias pessoas surdas na construção de políticas que garantam seus direitos e autonomia.
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